quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Branca de Neve

Talvez esse seja mais um conto de fadas, sobre Branca de Neve ou qualquer outra princesa.
Era uma vez, num reino muito, muito distante, uma princesa que vivia à espera de um grande amor.
Desejava ardentemente que ele fosse belo e viesse montado em um cavalo branco.
Mas pode acontecer do príncipe esperado não ser tão belo em conteúdo quanto seria na embalagem.
E assim a princesa se desiludiu e se desiludiu e se desiludiu.
Estaria o verdadeiro príncipe da princesa (aquele de conteúdo nobre) escondido sob a embalagem de um ogro?
Mas, assim, aproximaríamos da história de Shrek...
Mas deixemos de fábulas.
Vamos tentar ancorar em um porto mais próximo da realidade, ainda que não necessariamente real.
Talvez pudéssemos chamar de um porto virtual...
Vamos lá.
A areia do tempo continua a correr, mandando aviso que um dia a mais é um dia a menos.
Seguimos em busca de planos, sonhos e imagens que se exibem em nosso horizonte, mas nem sempre conseguimos trazer as promessas para o chão da vida real.
Castelos foram construídos em terrenos firmes. Pelo menos assim imaginávamos. Mas bastaram algumas intempéries, que nem chegaram a ser tempestades, para desmoronar tijolos, telhas e objetos instalados com tanto esmero, atenção, dedicação e carinho.
Tudo acabou por ruir.
Desesperamo-nos.
Uma, duas, dez, várias vezes.
Imaginamos em inúmeras situações que seria ali o fim.
Desejamos que tudo mais acabasse ali mesmo, naquele exato instante.
Pronto. Fechamos os olhos e esperamos o final.
Mas, de fato, não tinha acabado, como nunca acabou.
Em meio a tantos altos e baixos dessa montanha-russa de relacionamentos e sentimentos que é a vida, nunca paramos para pensar naquilo que nos aproximava inexplicavelmente.
É tanto tempo que nem sabemos explicar bem quando foi a gênese.
Quantos anos?
Não sabemos.
E como começou ao certo?
Também não conseguimos capturar essa resposta.
O certo é que, mesmo de longe e sem jamais termos nos tocado, a gente acabou se tocando e se ligando.
Inexplicável.
Inevitável.
Palavras, músicas e sensações.
Dias e pessoas passaram por nós.
Mas você e eu acabamos ficando um para o outro.
Interessante que nos momentos de desacerto, de insegurança e quando escurecia, acabávamos por pensar um no outro, ainda que não chegássemos a falar nisso mutuamente.
- Ele me entende. Ele me lê.
- Ela me entende. Ela me lê.
Era mais ou menos isso que ocorria. Era mais ou menos isso que se passava.
E alguma coisa lá dentro acabava por nos acalmar e confortar.
E, assim, a gente segue.
E o tempo voa. Voou, como você mesma disse hoje.
Mas, ainda que o relógio não tenha dó e trabalhe para colocar mais distância entre nós, certos acordes de certa canção que já não é tão jovem assim continuam trazendo você para mim... passe o tempo que passar.
"Não quero mais ficar pensando em você..."
E ela talvez toque agora mesmo, mentalmente, repetindo a melodia conhecida.
Depois de tanto tempo passei aqui para escrever. Para lhe escrever.
Pode significar algo ou não.
Pode ser realidade ou ficção.
Talvez seja apenas um sonho dentro do sonho.
Talvez não.
Ninguém mais precisa entender, desde que a gente entenda e se entenda.
Seja lá onde estiver nesse momento, não se aflija, menina, sempre estarei com você.
E que isso tenha algum valor de fato.
Respire e sorria, há tanta vida lá fora.
Há coisas belas para se ver.
Sempre.
Aqui, voltamos à questão do belo e à questão da princesa em busca do príncipe.
Afinal, o belo é belo por si só pelo que se mostra ao se ver?
Ou o belo é de fato belo quando se descobre o que de fato é a pessoa por dentro?
Tempo para pensar...
A princesa, com o tempo, acabou descobrindo que o que é belo e agradável ao olhar nem sempre é aquilo que a toca de fato em essência.
E o que fará a princesa?
A maçã foi mordida e ela está adormecida.
E que aquele que for capaz de beijá-la, tocá-la em essência e retirá-la desse torpor, apareça algum dia.
E que, no momento em que abrir seus olhos, a princesa possa enxergar que aquilo que de fato vale a pena e faz sentido, está muito além da aparência.
Acorde, princesa!

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Confabulações do além


Os fantasmas emergiram todos de uma só vez da penumbra e se reuniram na sala do casarão.
Resolveram abandonar o status de sepultados ao qual tinham sido relegados.
Arrastaram correntes e cadeiras, levantaram poeira, trouxeram consigo vendavais.
Folhas secas e amareladas pelo tempo redemoinharam pelo ar.
Memórias foram remexidas, retiradas de gavetas profundas e expostas nas paredes, nuas e cruas.
E os fantasmas passaram a confabular.
E os fantasmas arrancaram dos bolsos mapas e traçaram limites e territórios próprios.
E os fantasmas discutiram passado e presente.
E os fantasmas tentaram prever o futuro.
E os fantasmas, todos que já se imaginavam exorcizados (em tese), passaram a querer se materializar e interferir (na realidade prática).
A noite fria, seca, escura e de nuvens segue se arrastando desejando demorar a encontrar a alvorada.
E os fantasmas continuam sentados na sala.
Alguma hora terão de se levantar e voltar para o escuro reino do esquecimento.
Algum deles insistirá em continuar a assombrar o casarão?
Não se sabe.
Mas todos eles teimam não apenas em assombrar e sim tornar à vida real.
Enquanto tudo é incerto, deixe que eles pelejem nas suas confabulações.

domingo, 23 de junho de 2013

Uma lembrança e a neblina

Olhar que atrai os olhos. Uma foto surge na tela. 
Olhos que gritam, gargalham e zombam.
Aqueles mesmos que ainda incomodam. Brilho intrigante. Traz arrepios à flor da pele.
A lua plena no céu leva à superfície da memória a recordação dessa mesma luz refletida na pele clara.
Traz a lembrança do olhar que falava independente da boca sussurrar sequer o mais tênue som.
Olhos doces, lânguidos e convidativos.
Nem faz tanto tempo, mas parece que já há uma vida inteira separando ela dele.
E mesmo assim a presença não deixava de permanecer tão perto como se quase pudesse tocá-la.
Paradoxos.
Uma saudade inexplicável torna-se praticamente palpável. Senta-se ao seu lado. Inevitável.
E ele se lembra dos olhos.
Os olhos que foram tantas vezes de mel.
Olhos que encantaram. Embriagaram.
O mesmo olhar que acabou se tornando gelo.
Gelo que ainda não derreteu.
Pelo menos ele não viu esse gelo derreter.
Ainda não chegou o momento.
Chegará?
Com um suspiro fundo ele vê a saudade se levantar, abrir a porta e sair...
Nem foi preciso dizer adeus.
Neblina que se dispersa.
E ele segue só.
Mas, nem por isso, pior.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Mensagens ocultas



E a vida (mais virtual do que real) seguia em aparições e desaparecimentos.
Buscas e fugas. Estas, inconscientes. Aquelas, conscientes.
Questões de reciprocidade.
Questões de entendimento.
E ele a entendia.
Sabiam disso, os dois.
E ele nem precisaria tê-la enxergado para a amar.
Só de senti-la, em essência, já seria mais do que suficiente.
Aquilo era alimento muito além dos limites e limitações do corpo. Satisfação na medida certa.
Ele a entendia. Entendia tão bem.
E também a sentia da mesma forma. Sentia-a na essência.
E era essa quintessência o que mais fascinava.
Era etéreo aquilo que ia bem além das linhas, das formas, dos contornos, das curvas.
Não que aqueles olhos brilhantes e aquele sorriso ora enigmático e ora tão aberto não fizessem jus ao interior. Faziam. E muito.
Mas eram apenas joias, adornos.
O mais importante estava muito além.
E não era qualquer um que conseguia notar aquele detalhe que, muito além de um detalhe, significava o verdadeiro sentido dela.
Ele enxergava além da superfície. Não se perdia apenas na imensa beleza, que ainda assim era rasa. Ele via bem mais profundamente. Encantava-se pelo conteúdo.
E isso, inexplicavelmente, os unia.
Seres que se reconheciam mesmo à distância.
Longe-perto vivendo e vivenciando um paradoxo.
E assim as coisas seguiram adiante por seguir.
Um dia, coisas essas, fariam sentido e eles as entenderiam como se entendiam entre si.
E a vida seguiu.
Em aparições...
E desaparecimentos...
Buscas e...
Fugas.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Cinzas

O braseiro há muito permanecia intocado. O aspecto era de tranquilidade e paz. Não havia nenhum crepitar ou mesmo sinal de fumaça.
O tempo passara. Bastante.
O furor das chamas era apenas lembrança.
E a memória do calor não é suficiente para afastar o frio. Nunca foi.
O fogo consumira tudo o que foi possível.
O homem se aproximou e observou aquele ambiente de calmaria.
Dali ainda sairia alguma coisa?
Ele pensou que não.
E resolveu remexer as cinzas.
Uma centelha permanecia intacta lá embaixo.
Ameaçou reviver.
"Mas será?"
E ele resolveu alimentar a faísca quase esquecida no tempo passado.
Brilhou, esquentou, fulgurou.
Saltou à vida e reacendeu.
Agora crepita e consome novamente, sem pressa, mas com calor tamanho que chega a incomodar.
Ele se senta a observar o fogo vivo.
Sem sequer evocar a alegoria da fênix, ele carrega agora consigo a certeza de que algumas cinzas não devem ser remexidas.

domingo, 30 de setembro de 2012

Labirinto

O túnel era longo. Adiante tremulava uma luz a indicar o caminho. Ele então entrou por aquele corredor. Seguiu sem medo. Quando deu por si já estava perdido.
A luz cor de mel que brilhava, convidativa e repleta de esperanças tal qual um doce olhar, não era para lhe orientar... Serviria e serviu, sim, para desnortear.
O corredor que se mostrava como um rumo a ser tomado, logo acabou se revelando como um labirinto.
Ele caminhou atarantado por aqueles corredores sem fim.
Deu cabeçadas nas paredes.
Andou às escuras.
Por vezes - tantas delas - parou e quis chorar, desistir, sentar-se e deixar o tempo passar até acabar... Imaginava-se definitivamente sem rumo. Pensava que jamais conseguiria sair daquela imensidão de túneis.
Aí então, de repente, não mais do que de repente, percebeu que não precisava mais daquilo.
Percebeu que sair daquele labirinto só dependia dele mesmo, da sua própria vontade.
E foi aí que uma luz brilhou acima de tudo e mostrou que existia sim, uma saída.
E para lá ele seguiu.
Esse sim era o verdadeiro caminho.
Saiu.
Foi a sua redenção.
Foi o seu recomeço.
Olhou para trás somente para puxar a porta, trancá-la e jogar a chave (quebrada) fora, para que não houvesse o risco de tornar àquele labirinto.

P.S. Eis aquilo que brotou de uma conversa com Rê. Situações e sensações múltiplas e mútuas.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Crônica de um ano

- Volte em um ano -, disse Ela.
Dispensou-o com a mesma naturalidade com que se fala a um vendedor que oferece um produto corriqueiro à porta.
Ele ainda tentou argumentar, explicar, quis ficar, mas ela não arredou pé de suas convicções.
- Você é a pessoa certa, mas na hora errada -, citou um chavão como se fosse uma frase tão elaborada como a primeira vez que Shakespeare colocou na boca de Hamlet: To be or not to be, that´s the question.
Ela tinha lá dentro de si a sensação de que ele de fato era a pessoa que ela há tanto esperara.
Ele sabia ouvi-la, compreendê-la, tinha paciência e despertava nela sensações jamais sentidas antes.
Mas ainda assim preferia deixar que ele fosse embora.
Afinal ela tinha coisas a fazer, viagens para curtir e situações para viver.
Ela havia definido um cronograma de realizações e não seria um "cara certo" qualquer que a iria atrapalhar.
Pensava consigo mesma que tinha perdido muita coisa na vida até ali e que precisava recuperar todo o tempo perdido.
Mas não passava pela sua cabeça que muitas coisas interessantes poderia viver ao lado dele.
Ela se apegou simplesmente a tudo o que poderia haver de ruim ou dar errado, e em nenhum momento pensou nas coisas boas ou certas.
Sem se preocupar com o peso que o pedido poderia provocar nele, reafirmou:
- Volte em um ano!
Ele, constante, sem entender bem os altos e baixos dela, decidiu por fim acatar o pedido.
Esfriou, desanimou, desiludiu-se.
Manteve proximidade durante certo tempo.
Foi difícil aquele tempo de incertezas e, porquê não, amargura.
Não conseguia ser apenas amigo. As lembranças dos beijos, dos abraços e dos olhos brilhantes abrindo de manhã no travesseiro ao lado atormentavam-no. Aquilo tudo doía fisicamente, como ferida aberta à flor da pele.
Estava demasiado machucado após ter feito a escolha, lá atrás, por trilhar por um caminho sem volta.
E assim, acabou por se distanciar.
Foi se tornando menos presente.
A via cada vez menos.
Falava com ela cada vez menos.
Buscava ou dava notícias cada vez menos.
E o processo seguiu assim.
Antes chovia, depois chuviscou, acabou pingando e, por fim, secou.
Ele se calou, apagou-se.
Um inverno antártico caiu sobre eles.
Os dias sem ela foram difíceis.
Tantos momentos únicos, tantos sorrisos, tantas lembranças boas, tantas situações inusitadas.
Ele pensava que não conseguiria se recuperar ou esquecê-la.
Afinal de contas, aquele clique fora do normal que teve ao vê-la chegando numa noite de lua cheia ainda o lembrava de vez em quando que talvez ela fosse a mulher da sua vida. Mas não adiantaria nada se ele não fosse o homem da dela. E, pensava ele, se de fato ele fosse tão importante, ela jamais o teria mandado ir embora e esperar longe. Afinal, ele mesmo não faria isso com ela.
Dia após dia, o tempo foi se arrastando.
Ele jogou fora o calendário, onde não ousara marcar nenhuma data futura para voltar a ela.
Dela não soube mais muita coisa.
Não sabia se ela tinha sido feliz na busca pelos momentos que não vivera e que buscava. Não sabia se ela tinha atingido os seus objetivos traçados para 365 dias futuros.
Desinteressou-se. Desligou-se. Ainda que não tenha esquecido. Mas era necessário ser assim. Ela determinou esse fim.
Ele caminhou para longe.
Seguiu em frente.
Ele não iria voltar a ela para ouvir novamente um novo pedido de tempo:
- Me dê mais um ano.
No caminho por ele trilhado aconteceu muita coisa. Ele conheceu novas mulheres, provou novos corpos, viveu novas paixões.
Ele não a havia esquecido, mas escolheu não voltar.
Preferiu se entregar a uma mulher que jamais havia pedido para que ele saísse e voltasse depois.
E sobre ela, aquela que havia pedido que ele voltasse depois?
Ela foi se apagando. As lembranças foram amarelando, secando, se perdendo. Folhas caídas de uma árvore morta.

***

Numa certa noite em algum lugar qualquer, ela sente o vento tocar seu rosto e sorri com os olhos de uma maneira que só ela sabe. Olha o céu e vê a lua cheia clareando os arredores. Sente um cheiro, ouve uma voz e uma melodia que fazem lembrar dele. Todas as lembranças voltam de uma só vez. Lembra-se do rosto, do calor e dos sussurros ao pé do ouvido. Arrepia-se. Sente um nó no peito e se vira para ver se ele se aproxima, voltando, um ano depois. Afinal ela havia combinado isso. Mas só vê a sombra, o vazio e o silêncio. Uma nuvem cobre os seus olhos. Parece que vai chover dentro dela. Seu sorriso se esvai como fumaça ao vento. Ela suspira fundo e uma dor aguda atravessa o seu peito.
Ali, sentada naquele lugar e sem ter conseguido encontrar ninguém mais que a completasse como ele fez em tão pouco tempo, ela tem a constatação fria de que, há um ano, mandou embora aquele que seria o homem da sua vida por um simples capricho.
Ela não tem forças e sequer coragem para procurá-lo e, infelizmente, tem a cruel certeza de que ele não voltará.
E sabe aquela felicidade que ela buscava ao mandá-lo ir embora?
Pois bem, hoje ela sabe que não passava de uma efemeridade e que esse foi um dos grandes erros da sua vida.
E o tempo que ela precisava, esse não passou de tempo perdido.

domingo, 8 de julho de 2012

Guardador dos segredos


Onde os outros vêem palavras soltas e sem sentido, eu enxergo frases feitas e elaboradas.
O que parece ser mistério total à audiência geral, a mim não passam de histórias claras, explícitas.
As entrelinhas que você teima em esconder na penumbra, saltam à luz viva diante dos meus olhos.
Para muita gente você pode escrever num idioma desconhecido, mas eu consigo traduzi-lo na minha própria língua.
Você fala em terceiras pessoas como se estivessem em reinos ficcionais.
Mas entendo claramente que há um pouco de você mesma e de suas próprias histórias nas suas personagens.
Não são casos ao acaso.
Não por acaso são seus próprios casos.
Não são desconhecidas pessoas, é você a falar de e para si mesma.
E nem preciso conhecer nomes, rostos e situações para entender o que você conta.
Não preciso imaginar.
Apenas sinto.
Mas tornarei às suas palavras...
Atingirão elas os olhos certos a ponto de provocar neles o entendimento mínimo?
Isso não sei dizer.
Nesse sentido, sei apenas de mim.
E, sendo assim, lhe compreendo.
Mas não é isso que lhe basta.
Não sou o destino final dos seus escritos.
E eles não são simplesmente para satisfazer a sua própria sede.
Afinal qual o escritor escreve apenas para si e não para outros lerem?
Não creio que exista.
E você não será a pioneira nesse caminho.
Sabe?
Você fala de amor.
Você exala amor.
Dispõe sobre corridas, tropeços, tombos e desilusões.
Há mais olhares tristes do que gargalhadas estridentes em suas letras.
E será assim enquanto não houver aquela história definitiva e feliz.
É.
E vai continuar a expôr suas fragilidades, preocupações e decepções até que surja a hora certa.
É a sina.
É o sentimento (entenda como amor) que nos move (a todos nós seres humanos).
É também o sentimento que a move.
Não adianta fugir.
Não adianta tentar esconder.
Não de mim.
"Há no ar cheiro de sentimentalismos amarelecidos pelo tempo. A seca no Cerrado piora tudo. Vira cinza. Espero que passe e que a cor volte."
E não tema, menina do castelo.
Seu segredo está bem guardado comigo.
Sou o guardador dos seus segredos.
E assim será.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

O detalhe

- Venha. Vamos dialogar.
O convite nem era pretensioso. E também assim não soava.
- Afinal o quê uma mulher procura em um homem? - disse-lhe ele.
Quais seriam as qualidades que as mulheres (sob a ótica dela) esperavam do sexo oposto? Era isso o que ele queria ouvir dela. Sendo ela uma mulher quase ideal, sua opinião poderia decifrar o tortuoso caminho que leva ao coração feminino.
E veio, dessa vez nem em entrelinhas mas sim exposta nas linhas, a fórmula. A julgar pela definição daquela mente rara, há mais homens ideais do que folhas numa árvore.
Maturidade representaria 80%. Os 20% restantes traziam ingredientes como bom humor, inteligência, educação, gentileza e atitude. Nem precisa ser belo e muito menos rico.
Simples assim.
Qualidades que nem chegam a ser dificilmente encontradas.
- Eu próprio talvez as tenha em sua maioria -, pensou ele.
Seria então ele o homem que ela esperava?
Seria ele então aquele que ela procurava?
Seria ele então o homem ideal dela?
Será? Seria?
Mas (sempre existe esse mas)... Existe o detalhe.
E é justamente o detalhe que desmantela um sonho.
E leva a bater com o rosto na dura e fria realidade.
É como um castelo com 999 cartas colocadas aguardando a milésima para completar a obra. Daí naquela última carta surge um detalhe: a mão tremula por um segundo. Todo o castelo vem abaixo. E por um só detalhe.
Vale uma frase feita: um detalhe pode fazer toda a diferença.
E faz.
"Química". Está aí a definição que acaba por esmaecer as qualidades descritas anteriormente.
Não bastará apenas o homem ter todas aquelas qualidades se não houver a malfadada "química" (não aquela dos livros de escola e sim uma muito mais difícil de ser entendida e definida).
Desalentado, ele entende que a sua busca pela resposta ainda não chegou ao fim.
O que fará?
Continuará mantendo consigo as qualidades e seguirá em frente. Torce ele para estar atento ao momento em que surgir no seu caminho a mulher que valorize as tais qualidades e que, além disso, tenha química com ele.
Encontrará?
Não sabe. Por enquanto anda muito às voltas com as interrogações em torno de uma simples palavra: química.

A menina na torre


Era como no conto de fadas. A alegoria do (auto?) confinamento.
Ela também tinha no nome o R, mas não era Rapunzel. Não tinha as mesmas longas tranças da conhecida personagem, mas com ela dividia a sensação de viver trancada numa alta torre. Isolada do mundo, acima de tudo. Via tudo e a todos, mas não podia ser igualmente e totalmente vista. Sentia-se como intocável, inalcançável.
Ainda que talvez o fosse por própria escolha, isso a incomodava sobremaneira.
Como não conseguiam enxergá-la de fato, compreendê-la, se tão simples ela se considerava? Porquê será que nenhum príncipe (encantado ou não) ainda não tinha se dignado de fato a ir resgatá-la? Não valeria ela um esforço sequer, afinal?
Das vezes que aparecia na janela podia ser vista, radiante como estrela. Elogios então ouvia vindos ao sopro do vento. "A mais bela"... "A mais encantadora"... "A mulher dos sonhos"... Mas nenhum deles vinha revestido de atitude prática ou de alguma menção corajosa de tirá-la daquele isolamento.
Do alto da torre ela refletia. Mas será que esse príncipe existiria?
Dias e noites de sucediam. A lua de fase a fase seguia: nova, crescente, cheia, minguante, nova... E nada daquela espera findar.
Por fim ela própria entendeu que não bastaria apenas esperar. Era preciso ela própria agir. Se descalçou de seus sapatos de cristal, se despiu de seu vestido de princesa. Arrombou a porta da torre. Colocou o pé no primeiro degrau da escadaria. Era preciso descer. E desceu.
O mundo lá embaixo era diferente do visto de cima. As pessoas eram muito mais humanas, sujeitas ao erro e imperfeitas. Mas pelo menos não eram idealizadas. Eram reais. Eram tocáveis e podiam tocá-la.
Belos príncipes apareceram diante de si lhe oferecendo as mais lindas coisas, os mais ricos presentes. Encantavam-se com seu rosto luminoso. Queriam-na. Ela seria a sua posse. Mas isso à princesa não bastava. Ela queria ser ouvida. Compreendida. Desvendada. Mas a ninguem isso interessava.
Não que ela fosse assim tão exigente, mas para ela não bastava apenas a sensação da pele, é preciso o toque da alma.
Desconsolada, a menina saiu pela estrada. Em uma curva do caminho ela encontrou um viajante a falar ao léu. Seria louco? Parecia e não.
Era dali mesmo, mas parecia vir de longe. Contou histórias de outras paragens, de outros mundos, de outras vidas por tantos vividas. Encantou-a pelo modo de falar.
Mas não foi somente assim.
Mais do que isso, o viajante se interessou pelo que ela tinha a contar. Alimentou-se do que ela tinha a dizer. Compreendeu suas aflições, seus temores e suas frustrações.
O quase estranho desvendou-a como poucos o tinham feito até então. E era ele tão simples e comum.
Ele conseguiu enxergá-la em sua essência. Viu-a além dos olhos comuns.
E a menina ficou confusa desde então.
Permitiria-se dar mais um passo naquele caminho?
Ou sentir-se tão desvendada acabaria sendo-lhe um risco demasiado?
A menina ficou sem reação.
Será que teria de voltar mais uma vez à torre e fechá-la em torno de si?
Enquanto a resposta não lhe vinha, ela se deixou ficar observando o horizonte lânguido do entardecer.

P.S. Dias depois e a dúvida ainda continua a lhe esvoaçar os sentidos.

(Original de 4 de junho de 2012)

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Crônica de uma morte anunciada



Em certo sentido, mulher, você ainda está por aí.
Não é sempre, mas as impressões são traiçoeiras.
Ecoam passos. A voz melodiosa sussurra pelo vazio da casa. O mesmo cheiro doce vez ou outra parece aparecer no ar. E a melodia de alguma música que nos marcou traz algum lampejo do que já fomos: o meu eu em você e o seu eu em mim.
Mas são apenas aquelas lembranças mais teimosas que me traem quando menos espero.
Sua presença física já se foi, há muito.
Não há mais rastros meus ou seus no caminho.
Já se sucederam incontáveis minutos, horas, dias, semanas e meses (talvez anos?) desde que nos distanciamos sem sequer justificar ou traduzir o real significado da palavra adeus.
Nem eu o fiz.
Nem você, tampouco.
Nada mais de fotos sorridentes ou pensativas, fios longos de cabelo espalhados e quaisquer objetos que remetam a você.
O tempo vai se encarregando de apagar os vestígios e atenuar os traços do desenho um dia riscado nas páginas da minha vida.
Foi assim com uma, com outra e com você mesma.
Tudo se foi.
Tudo passou.
As folhas foram caindo da árvore e acabaram sendo substituídas por outras folhas. Novas.
Antes as lembranças eram mais frequentes. Vinham minuto a minuto, dia a dia e agora não têm mais regularidade. Deixaram de ser crônicas.
E, pior ainda, suas lembranças passaram a se misturar com outras lembranças mais antigas e mais novas.
Assim, hoje, quando ouço passos ecoarem, vozes sussurrarem, odores acariciarem o meu nariz e músicas tocarem, não sei mais se são seus passos, sua voz, seu cheiro e nossas músicas.
Pode ser, na verdade, minha memória me traindo e me fazendo atribuir a você o que não era seu.
E assim, afinal, terá existido você de fato?
Terá sido real ou ilusão virtual?

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O encontro

A confrontação descarnada com a realidade nem sempre ocorre sem impressões desmentidas, verdades imaginadas atiradas ao solo como frágeis paredes de castelos de areia no abraço da onda. Certezas outrora tão certas podem se vestir em longos mantos de interrogações plenas. A pessoa que demonstrava ser, pode se revelar mero personagem de frágil ficção, arremedo de si mesma ou de uma terceira figura, talvez inventada, imaginária. Todavia, eis que assim dessa vez não foi. Ela estava bem ali do lado como representação fiel daquilo que demonstrava ser e da impressão que passava. Movia-se com graça, parecia ter os movimentos calculados como num balé marcado com antecedência. Mas, incrivelmente, era natural. Falava, sorria candidamente e seu olhar, sem medo de ser tímido, de vez em quando brilhava. Era a cópia perfeita de si mesma (aquela do mundo virtual) e saltava aos olhos com os mesmos traços com os quais, inesperadamente, visitava os sonhos dele. Por mais que saiba interpretar, ela ali não interpretava e se fosse personagem, seria personagem representando ela própria. A sua presença traduzia-se, se preciso fosse, como metalinguagem. Ela era ela mesma representando para ele a sua própria história. Era aquela mesma que escrevia e que se descrevia. A mesma que se abria sem medos, se desnudava através das letras e que, justamente por assim ser, mais misteriosa se tornava. Linhas, nada tortas, e entrelinhas, expostas. Ele piscava, desviava o olhar e, disfarçadamente, se beliscava para saber se aquele novamente não seria um sonho. Dessa vez não foi. Era a realidade mais interessante ainda do que as coisas virtuais. E, justamente por tão interessante ser, as horas se passaram como se frações de segundos fossem. A tarde caiu com um cheiro tênue de terra molhada. O sol foi embora clarear terras cada vez mais a oeste. "Precisamos ir", a voz dela decretou parte da quebra de um encanto. Quando ela partiu, graciosamente deixou atrás de si um rastro de sensações. Simples, suave, agradável e ímpar como uma noite de lua cheia em junho... Lua, aliás, que naquele mesmo instante começava a dar o seu tom no horizonte à leste. Por um novo instante a imagem daquele rosto perpassou sua lembrança. E um arrepio bom arranhou o seu estômago exatamente quando ele refletia sobre superfícies rasas e mergulhos profundos. "Ah, se me fosse permitido mergulhar..." Ele sorriu, respirou longamente e seguiu adiante enquanto o luar acariava o seu rosto. Eis que assim foi.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

De saída...

Saiu como havia chegado. Não avisou. Não mandou sinal de alerta. Simplesmente se foi. Nem o trabalho de fechar a porta teve. Não porque pretendesse um dia voltar. Simplesmente não fechou porque lhe faltou interesse até para isso. Deixou para trás o vazio, o frio e o silêncio. Isso para não falar das interrogações várias. Os motivos para que ela se fosse ainda estão por serem descobertos. Permanecem escondidos nas sombras. Espreitam em cantos escuros, mudos. São mistérios que talvez não se revelem em dia algum. São criaturas a temer a luz. Indecifráveis tendem a permanecer. Ele ainda pensa nela. Ele ainda se lembra das palavras. Ele ainda ouve o som da voz. Ele ainda se arrepia ao escutar algumas melodias. Melodias essas daquelas músicas. As músicas. Mas, após caminhar cegamente em passo trôpego em campo minado, ele escolheu não se preocupar mais em saber se ela um dia irá voltar. Se ele se pegasse a se permitir pensar nessa volta, tantas dúvidas mais seriam as que se sucederiam. Voltará ela da mesma forma como uma dia chegou e no outro se foi? Trará ela uma desculpa daquelas qualquer, balbuciada num tom de confidência, quase de súplica? Aparecerá ela, voltando a ocupar espaço e continuando dia após dia como se nada tivesse acontecido? Ele não sabe. Não sabe de nada. Não sabe nem, na verdade, se ela existe de fato, em corpo e alma. Afinal, para ele, ela foi a mítica sereia que o encantou com o seu canto único.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Peso


Às vezes me dão um valor que eu próprio acho que não possuo.
Eu vejo o que as pessoas escrevem ou ouço o que dizem sobre mim e fico impressionado.
Sob a minha própria ótica não sou tudo o que pensam.
Nem pelo bem e nem pelo mal.
Se falam mal, não me importo tanto, mas quando falam bem acaba se tornando um incômodo.
Afinal se de fato pensam que tenho tanta capacidade ou se sou isso ou aquilo, isso me incomoda porque terei de provar que sou merecedor dessa avaliação.
É aí que as coisas se complicam.
Afinal nunca sou capaz de corresponder às minhas próprias expectativas.
Eu me cobro demais.
Sou exigente comigo mesmo.
E como não consigo corresponder plenamente, acabo me decepcionando.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Reflexos

É tanta gente que tenta se enxergar nas minhas palavras que nem eu já tenho certeza se eu próprio sou refletido nelas.
É como se meus textos aqui fossem espelhos para a pessoa (se) encarar.
Tudo o que eu postar aflora à superfície como se fossem diretas ou indiretas a alguém.
Toda palavra que eu atiro ao ar é como flecha que precisa procurar um alvo ou carapuça à procura da cabeça ideal para se assentar.
Não posso escrever em tese.
Não posso fazer ficção.
Não posso simplesmente escrever por escrever.
O motivo para que eu escreva não pode ser simplesmente o desejo de escrever.
Preciso ter intenções ou vontades alheias ao ato em si de escrever.
A vida segue do avesso.
As coisas que eu mais nego são as que vão se tornando mais sólidas.
Contradições ditam as regras.
Assim, nem mais nego.
Apenas continuo a escrever.
Com motivos terceiros ou não.
Olhe no fundo do poço.
Veja a imagem presente.
É você própria refletida ou você é que seria o reflexo de alguém que está a olhe observar lá do outro lado?
Nunca é possível saber ao certo.
A vida tem lá seus mistérios.
E, para o nosso próprio bem, nem todos são desvendáveis.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Microconto

Demorou para acordar. E, quando se deu conta, o sonho já tinha acabado há muito. E não havia mais tempo para voltar a sonhar. Assim, acabou.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Rascunho perfeito

Pegue cada tijolo da construção feita com tanto cuidado e atire-o de lado.
Retire as bases de sustentação.
Fira mortalmente o alicerce.
Destrua parte a parte aquilo que deu tanto trabalho para fazer.
Esqueça todo o sangue, suor e lágrimas misturados àquela argamassa.
Não se importe se outras mãos lhe ajudaram na tarefa árdua.
Simplesmente siga em frente com a sua ânsia de destruição.
Apague cada ensinamento.
Apague cada sorriso.
Apague cada momento bom.
Apague cada lembrança.
Apague cada sonho de futuro.
Apague cada esperança.
Apague tudo o que aprendeu de bom.
Apague cada valor compartilhado e cultivado
Simplesmente siga em frente nessa sua ânsia de apagar o passado.
Faça tudo ao contrário do que é certo.
Faça tudo o que contraria o bom senso.
Faça tudo para magoar quem de fato se preocupa contigo.
Faça tudo para acabar com o que de mais belo e puro você possuía.
Siga em frente.
Torne-se uma pessoa ainda mais vazia.
Torne-se uma pessoa ainda mais fútil.
Torne-se uma pessoa ainda mais mesquinha.
Torne-se uma pessoa ainda mais oportunista.
Vá em frente.
Destrua.
Apague.
Erre.
Perca-se.
Deixe o tempo agir contra você.
Desfaça cada laço de coisa boa e de racionalidade que ainda lhe unia a uma justa causa.
Ignore cada rastro de lucidez da sua vida.
Viva o turbilhão.
Contemple o olho do furacão.
Pior do que ser cego de fato é ser aquele que escolhe não ver.
Pior do que ser surdo de fato é ser aquele que escolhe não ouvir.
Pior do que ser mudo de fato é ser aquele que escolhe se calar.
Seja então assim: pessoa cega, surda e muda por escolha.
Certa é a pessoa que aprende com os próprios erros.
Mais correta ainda é aquela que tenta reescrever uma história corrigindo os erros anteriores.
Mas aos orgulhosos que escolhem trilhar o caminho errado só para provar ao mundo que estavam certos, ainda que saibam que nunca estarão...
A estes só resta, cedo ou tarde, ver o resto dos escombros de sua torre desalicerçada desmoronar.
Daí então descobrirá, tarde demais, que o tempo não era seu aliado e sim seu pior inimigo.
Vá em frente.
Não olhe para trás.
Dê mais um passo e mergulhe no abismo.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Música no ar


O destino lhe prega peças.
Não adianta esperar.
Não adianta sonhar.
Não adianta desejar que seja assim ou de outra forma.
As coisas acontecem sem que você tenha controle sobre elas.
É assim a vida.
O destino pode estar a lhe espreitar numa ligação em final de tarde de sábado.
Qual seria o motivo?
E a voz fala de certa música que exatamente naquele instante passava pela sua cabeça.
Dá um arrepio imediato que, longe causar frio, lhe faz suar.
"Afinal porque ela tem essa capacidade de me desconsertar à distância?", é a pergunta que fica no ar após o final da ligação.
Você tenta fugir do pensamento.
♫♪"Não quero mais ficar pensando em você... Eu tenho muito medo, medo de sofrer"♫♪
Mas há a música que se repete para você e fica no ar.
E os arrepios persistem.
Afinal de contas, porque você pensa nela e, mais misterioso ainda, porque ela própria pensa em você?
A pergunta ecoa, a resposta nunca vem.
Mas é fato que há muito você pensa nela mais do que devia.
Já não fala sobre isso, mas o fato é que não a esquece.
E, certos dias, quando o carro come os quilômetros se aproximando daquela cidade, é inevitável a lembrança.
"Será que um dia?...", é outra pergunta que se perde ao vento.
O sábado vai embora.
E você busca lembranças vivas dela...
Encontra o sorriso doce e o inconfundível jeito de olhar brilhando...
♫♪"Tô viajando há horas em sua fotografia... A noite está passando, está chegando o dia..."♫♪
A madrugada de domingo clareia.
Por fim você se entrega ao sono e mergulha no reino de Morfeu.
Algo se passa por lá.
Você acorda e ainda tem na boca as letras do nome dela, que lhe visitou.
O sonho ainda está vívido.
Mas você escolhe não falar sobre isso, ainda que saiba que isso vai lhe perseguir durante todo o dia.
Você tenta afastar os pensamentos.
Afinal, já tem pensado demais nela e é melhor não remexer as cinzas que imaginava estarem apagadas.
E você se cala para o mundo.
Senta-se debaixo de uma árvore qualquer e tenta se isolar.
Torce para que o silêncio prevaleça também internamente.
Mas o inesperado acontece.
E aparece em formato de uma mensagem de texto:
"Quero você sempre na minha vida, independente do resto. (:"
E, muito tempo depois, você ainda não consegue traduzir o que linhas e muito menos entrelinhas querem lhe dizer.
E prefere não pensar nisso.
Afinal está cansado de sofrer.
♫♪"Se eu me entregar eu vou chorar depois, há muito tempo eu não me entrego a um novo amor... O envolvimento vem com o tempo e o tempo pode machucar..."♫♪
O domingo vai chegando ao fim e você ainda não tem respostas.
Cansa-se de procurá-las.
Decide então que vai simplesmente viver.
Certas coisas a gente não deve contestar demais, deve simplesmente viver...
E assim segue o curso natural das coisas...

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A Sexta-Feira 13 em mim

Eu tenho um 13 tatuado no braço esquerdo.
Já ouvi todo tipo de pergunta a respeito da escolha de tal número.
Já me perguntaram se é porque eu sou petista; se é porque torço para o Treze de Campina Grande (PB); se é porque eu sou fã do Zagallo; se é porque eu me considero azarado; e até se é porque sou doido mesmo.
De todas essas opções a única que pode se encaixar é a última: loucura.
Mas nem tanto.
Vou tentar explicar.
Desde o meu nascimento esse número me persegue.
Primeiro porque nasci numa sexta-feira, 13 de fevereiro de 76.
Era um ano bissexto e nasci justamente no mês que torna o ano bissexto.
A soma dos dois numerais no ano que nasci: 7 e 6, dá justamente 13.
Também nasci às 10:30, que eliminando-se os zeros fica justamente 13.
De quebra a data caiu com a lua em plenilúnio (lua-cheia).
E existem outros pontos em comum.
Daí, em 2007, numa sexta-feira 13, quando decidi que iria tatuar o 13 no braço esquerdo.
Como testemunha levei a então namorada.
Eu penso que ela duvidou da minha coragem até que o tatuador Léo fez a primeira marca de tinta preta no meu braço.
O cara quis saber da história e eu contei. Ele arregalou os olhos, ficou boquiaberto.
"É bom fazer uma tatoo com motivos, com explicações...", comentou.
Depois de pronta a tatuagem fiquei satisfeito.
Hoje já a considero pequena, se fosse fazer novamente a tornaria maior.
Pois bem, dessa maneira o 13 é a minha marca registrada.
Tem gente que quando fica sabendo dos motivos, principalmente por eu ter nascido numa sexta 13, até se benze.
Mas tudo bem, não me considero sortudo ou azarado além do normal.
E outra, não tenho nenhuma predisposição para Jason, o fatídico personagem do Sexta-Feira 13, e nem para Zagallo.

P.S. O último filme da série Sexta-Feira 13 começou a ser exibido justamente no dia 13 de fevereiro de 2008, uma sexta-feira 13.
P.S.2 Na Festa da Fantasia de 2011 fui fantasiado de... Jason! Com direito a facão, máscara e machado! Mas não se preocupem, não fiz nenhuma vítima no local.

Observação: texto original postado em 29 de março de 2010. Republiquei, atualizado, aproveitando a data: sexta-feira 13 de janeiro de 2011.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Acabou



Pode ser fora do tempo ou despropositado, mas somente agora falo sobre a partida de 2011.
Pelas coisas ruins e pelo vazio que ele deixou na minha vida, confesso que nem deixa tanta saudade.
Conversando com uma amiga esses dias ela disse que o ano tinha passado com muita agilidade.
E de fato foi.
Se eu pudesse escolher, preferia tirar as coisas ruins desse ano e trazer para mim apenas as boas.
Mas os momentos ruins foram marcantes demais.
2011 foi um ano que registrou duas das piores perdas que tive na minha vida.
E, justamente por isso, poderia pensar em o esquecer.
Mas, nesse sentido, precisaria esquecer ainda as coisas boas.
De qualquer forma, nem tenho como apagar nada.
Dessa maneira continuo com a conta atual.
Vivi 2011 e agora chego a 2012.
Espero que esse ano seja melhor.
Da minha parte tentarei com que ele seja.
E que os bons anjos digam amem.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Por inteiro



Você vai dizer que é cheia de problemas e complicações.
Que não é uma mulher perfeita.
Que está longe de ser a mulher ideal.
Mas mulher ideal não existe.
E se gosto de você é em sua essência.
E sua essência também traz juntos os seus defeitos. Mas a gente precisa saber gostar e amar também o lado ruim da pessoa.
Porque o gostar não pode separar apenas as coisas boas.
Se fosse assim, seria fácil.
Mas a gente não pode apenas se alimentar dos sorrisos.
A gente também precisa beber as lágrimas, por mais amargas que elas sejam.
Precisamos nos fartar dos dias bons.
Mas também precisamos compartilhar as dificuldades dos dias ruins.
A gente ama a pessoa por inteiro.
É a tal música...
"Agora já não tem mais jeito, amo até seus defeitos".

Ficção



Basta apenas um passo para mudar tudo.
Fechar os olhos e sentir a troca de um beijo pode ser a chave para abrir uma porta fundamental.
Mas você, mulher, não se permite.
Afasta o cálice das coisas que a ligam a essa pessoa e bebe apenas no das coisas que imagina os distanciar.
De que lado está o peso maior?
Você o vê até interessante, companheiro para todas as horas, conselheiro, amigo e divertido.
Ele lhe entende como poucas pessoas já a entenderam. Sabe ouvir, concordar, discordar e dizer as coisas certas, nas horas certas.
Ele sabe enxergar você além da embalagem. Ele nota o seu conteúdo.
Mas, em contrapartida, você o afasta e aposta numa alegada falta de química.
Sim. Afinal você não pode se permitir se aproximar ainda mais dele.
"Não daríamos certo... Ele é meu amigo. Apenas".
Mas também não entende o porquê de, às vezes, até pensar nele, rir sozinha e sentir falta.
"Isso não! Nunca me passou pela cabeça..."
Ele é mestre em confundir as coisas e se acostumou à fila de nãos.
Você se diverte.
E acha interessante porque, diferente de tantos outros, ele nunca se afastou.
Continua o mesmo.
"Seria ele diferente?", pensa você.
E você se lembra de passagens.
Sorri novamente, acha graça de alguma piada perdida em tardes ou madrugadas de muitas conversas.
Quem é esse cara para você, mulher?
Será que há algum risco de que você esteja errada por fora?
E se em sua essência as coisas forem diferentes?
Já pensou se, ao invés de dar errado, tudo desse certo?
Mas, mesmo se desse errado, não perde-se nada em tentar.
Ao contrário, o mais provável é de se ganhar algo a mais.
"Não quero me envolver", é o que diz você.
Mas é impossível.
A própria vida nos envolve a partir do momento que abrimos os olhos e mergulhamos na luz e nas trevas do mundo.
Então, permita-se. Envolva-se.
Pense na possibilidade de deixar que um dia ele dê algum passo além da amizade para poder discordar contigo de muita coisa nesse caminho.
Deixe-o abrir a porta de muitos dos seus mistérios.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Valores



Valores (2/12/11)

A mulher não precisa de quem a compreenda, de quem lhe abra a porta do carro, de quem acalente o sono, de quem a acorde no meio da noite para afastar aquele sonho ruim, de quem esteja sempre do lado, para enxugar a lágrima e sorrir das coisas mais bestas só para vê-la feliz.
Ainda que inconscientemente, a mulher dá mais valor àquele que a faz sofrer e chorar.
Num primeiro instante, você, mulher que estiver lendo isso, dirá justamente o contrário.
Que precisa disso tudo!
Que gostaria de ter isso na vida!
Que esse é o homem ideal...
Mas, na vida real, isso é o que a mulher menos valoriza.
Afinal, o cara que tem essas características também tem uma realidade: ele a ama.
E, justamente por isso, ainda que inconscientemente, você não dá a ele o valor necessário.
Acaba, então, colocando-o sempre em provação.
Diante da bondade, da disponibilidade, da compreensão e de todo o amor demonstrado todos os dias, você passa a considerar que essa situação jamais mudará.
Você, mulher, tem a plena certeza de que nada, mas nada nesse mundo que você fizer, provocará o fim desse amor que ele demonstra sentir sinceramente por você.
E, justamente por isso, vai perdendo a graça.
E aí passa a crescer na sua cabeça, em importância, a presença daqueles que a tratam totalmente ao contrário.
É o cara que a ignora.
É o cara que só a usa.
É o cara que não a respeita.
E quanto ao bom, ao cara ideal?
Esse você deixa de peça sobressalente, para buscar de volta quando se cansar de sofrer por aquele que não a ama.
Deixe o cara ideal de lado, afinal, nada do que acontecer vai acabar com esse sentimento, certo?
Errado.
Chega um dia que o cara se cansa.
O caloroso se torna frio.
O todo-ouvidos se torna surdo.
As palavras se transformam em silêncio.
A eterna presença transmuta-se em constante ausência.
E vai embora aquele que a mulher amada jamais imaginou que a deixaria.
E, sozinha no meio do caminho, você descobre que homens ideais são seres em extinção.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Por quê???


"Você me ama?" - a voz feminina soa doce, porém inquisidora.
"Sim querida, eu a amo" - a resposta vem incontinenti.
Mas o que poderia encerrar uma viagem é apenas o início de um longo e tortuoso caminho - alguns diriam interrogatório.
E uma represa se rompe aos borbotões.
"Mas por que eu? Por que você gosta de mim? Por que você me ama?"
Apesar de variações dentro do mesmo tema e mesmo com as interrogações, tais perguntas vêm sempre carregadas de mistérios extras.
É um tempo angustiante o que se passa num átimo entre a elaboração das frases pela boca feminina, a captação pelo ouvido masculino e o processamento de uma resposta da mente do homem pego de surpresa.
Afinal de contas, a resposta errada pode atirar o desavisado no purgatório ou, de uma só vez, no inferno.
E é claro que ela não vai se contentar com uma resposta objetiva e direta.
Sua emoção não permite que a razão masculina a satisfaça com objetividade.
É preciso algo mais.
Daí o pobre rapaz normalmente aparece com os tradicionais motivos e adjetivos:
"Eu te amo por que você é bela, compreensiva, inteligente, sincera, fiel e penso que é a mulher da minha vida..."
E pensa o homem que se saiu bem e que por aí encerrou a conversa.
Mas a mulher não está satisfeita.
"Não é suficiente... Por que eu?"
A suar frio e tremer, para não gerar uma reação negativa na mulher amada, o pobre homem se põe a desfilar todos os adjetivos e qualidades que podem existir no dicionário, entre o céu e a terra e até além do que sonha a imaginação.
Depois da mulher aparentar (apenas aparentar) satisfação por tantas respostas, pode ser que o homem resolva agir à altura.
"E você, meu bem, por que me ama?"
"Por que sim" - e com um beijo dá o assunto por encerrado, por enquanto.
Expansiva nas perguntas e sintética na resposta.
E é assim mesmo.
Afinal as mulheres, muitas vezes, precisam de respostas para alimentar aquilo que elas mesmas não conseguem responder.

Comentário postado sobre o tempo


Todos nós precisamos de boas doses e tragos de tempo o tempo todo...
E vamos lá dar tempo ao tempo, mas sem ficar sentados à beira do caminho deixando que o tempo passe rápido demais...

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Verdade


E tudo talvez não passe de ficção.
Ainda, quem sabe, seja lá mera ilusão.
Onde andará a verdade?
Procure-a pelo caminho.
O caminho está vazio.
Nem sombra há.
E o que dizer da dita verdade?
Onde estará?
Não temos nem como dizer se andará de braços dados conosco.
Talvez estejamos sozinhos na estrada.
Ou nem na estrada a gente mesmo estará.
Estrada solitária então.
E essa tal verdade?
Haverá?
Talvez...
Mas, afinal, valerá contar a verdade de quem?
A sua?
A minha?
Ou a verdade do mundo?
Não tenho as respostas.
E nem sei dizer, ao certo, se essa senhora existe de fato.
Ou existirá e apenas não quer aparecer por aqui?
Sei lá.

Ponto de equilíbrio


Seguia ele estrada afora, na bagagem às costas carregava muitas histórias e muito mais decepções do que sonhos.
Mas isso não chegava a representar peso.
A cabeça ia cada vez mais livre, leve e não se ancorava a portos de pensamentos específicos.
Fugia da realidade de um certo tempo vivido.
Descartava, à beira do caminho, as recordações disso.
Descartes sem opção de reciclagem.
Meros descartes, sementes secas sem força para germinar.
Seguia ele.
Simplesmente seguia.
Mas logo algo mudaria.
Coisas da vida, do acaso, do destino.
Talvez tenha sido em uma curva do caminho ou quem sabe mesmo em uma reta - não é possível determinar, mas o fato é que lhe atravessou o destino uma ninfa.
Ser sem corpo, etéreo, mas isso não quer dizer que fosse um ser sem essência.
Era a essência em si mesma.
Bela no mais profundo âmago do seu ser.
Primeiro lhe atraiu a atenção.
O próximo passo foi despertar o encantamento.
Na sequência capturou, do viajante, o pensamento.
E fez prisioneiro vigiado a corrente curta, a quem só era permitido passear por perto, passar um tempo distante, mas sempre precisando retornar a ela.
O tempo passou lentamente.
Não atropelou.
Nem viajante e nem ninfa se atropelaram.
Deram tempo ao tempo e o tempo agiu.
Ainda que continuassem sendo etéreos um pro outro, algo mais acabaria por ligá-los ao cotidiano de um e outro.
De repente, não mais do que de repente, o destino os aproximou.
Sem mandar aviso, sinal ou dar explicação, o acaso os juntaria quase sem querer.
Numa noite qualquer, perdida entre nuvens cinzas-chumbo que se desmanchavam em água farta sobre o Cerrado, a voz de uma encontrou o ouvido de outro.
Macia, inebriante e sedutora música para os ouvidos, as palavras na medida certa e as respostas esperadas.
Eles se acariciaram ao longe.
Se reconheceram.
Se reconfortaram.
Se aconchegaram.
Minutos passaram tão rápido como breves instantes fugidios.
Quisera os relógios pudessem ser estacionados para perpetuar aqueles momentos.
As nuvens cor de chumbo à frente dele se fizeram coloridas.
As gotas caindo se fizeram brilhantes, tal qual chuva de prata.
O silêncio de um telefone sendo desligado não foi suficiente para afastá-los.
Dormiram com os lábios sorrindo, sem ter como fugir do pensamento um do outro.
Veio o dia seguinte e as lembranças se fizeram ainda mais vivas, presentes.
Pensamentos voam e se abraçam no ar, ao mesmo instante, em todo lugar.
O hábito de se falarem e de se ouvirem os uniu ainda mais.
Houve a expectativa daquele momento para chamar um número e ouvir o alô da voz que acalma e atrai do outro lado.
Por mais uma noite foram um pro outro o ombro, o arrimo, o PONTO DE EQUILÍBRIO.
O dia seguinte foi marcado por lembranças, sensações, arrepios, frios na barriga e desejos.
Desejo de mais voz.
Desejo de presença.
E os dois acabaram se encontrando meio perdidos.
O que seria dali para a frente?
Nenhum dos dois saberia dizer.
Não havia ainda a resposta.
Afinal, como já disse Shakespeare, "há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia".
Que ambos então aceitem apenas viver e deixar o tempo ver, ver no que vai dar.
Lá pelo meio da tarde uma dúvida o assaltou: outras noites da presença daquela doce voz viriam?
Isso ainda não é possível dizer, pois a noite seguinte ainda não chegou.
Da parte dele a presença dela é cada vez maior.
Ele sonha acordado com sua voz.
Terá um dia a presença física para dela também se recordar?
Só o tempo dirá.



Música incidental: Ponto de Equilíbrio (Hugo Penna).

"As vezes sinto as pernas bambas,
Sinto me faltar o ar,
É ofegante, o coração parece que vai parar,
Minha visão que te procura em meio a tanta gente,
Cada motivo é um motivo pra eu te procurar,
Inseguranças, incertezas, querem me barrar,
E a cada passo é um tropeço eu to indo pra guerra,
É confusão de sentimentos no meu coração,
Eu travo em sua frente,
Sinto gelo em minhas mãos,
E mesmo assim tive coragem e vou te dizer,

Meu ponto de equilíbrio,
O meu comando é você,
É tudo que eu preciso,
A força que me faz viver,
Então devolva de uma vez o que levou de mim.

Meu ponto de equílibrio
O meu comando é você,
É tudo que eu preciso,
A força que me faz viver,
Amor perfeito tem começo, meio e não tem fim."

terça-feira, 22 de novembro de 2011

The End?



E segue a vida na penumbra.
Vai em frente fingindo que está tudo bem.
Segue falando muito às paredes.
Disputa quedas-de-braço veladas.
Permanece o silêncio.
Permanece a ausência.
O tempo passa.
Não tem dó.
Mas também não tem como parar.
E giramundo.
O mundo gira.
E nem tudo o que já foi continua sendo.
Mas aquilo que se tenta disfarçar para o mundo, segue evidente dentro de si mesma.
Acabará?
Não é possível dizer, na vida real não existem avisos de final de filme: The End.

domingo, 6 de novembro de 2011

À boca livre



Falamos tanto da boca pra fora.
Você é assim.
Porque também não eu?
Se acha que serve só para mim, respire fundo e admita que também vale para você.
Palavras jogadas ao léu, ao vento.
Mais ou menos, todos somos especialistas nisso.
Confirmamos o fim aos quatro ventos, mas intimamente sabemos ainda estar longe o ponto final.
O máximo que conseguimos é um ponto e vírgula.
Mas, quase sempre, temos de conviver com as reticências...
E as histórias continuam mal resolvidas, mal acabadas.
E continuam sendo escritas, se não mais a quatro mãos juntas, pelo menos de duas em duas mãos.
Apesar do tempo e da distância os dois seres ainda permanecem próximos, se não nos corpos, pelo menos no pensamento.
As lembranças, volta e meia, se tornam assaltantes cruéis e atacam de maneira inesperada.
Roubam a calma, a paz e deixam como herança um vazio abismo no peito.
E cada qual insiste em continuar sozinho a dar cabeçadas no escuro.
Alguém aprenderá?
Só o tempo dirá.

P.S. Somos contraditórios por natureza.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Carta a você que busca por respostas



Afinal onde andarão as respostas?
Qual é o motivo que te leva a, insistentemente, procurar por notícias de alguém que pediu que fosse embora e fechasse a porta?
Se não tem mais nada a ver por quê se incomodar tanto com quem anda ou o que faz a outra pessoa?
Por quê?
Já se perguntou?
Se não tinha tanta certeza sobre o que desejava de fato, então por quê insistiu em estabelecer o distanciamento?
E agora que a distância se torna cada vez maior no tempo e no espaço é que você começa a se sentir incomodada?
Se era e ainda é tão importante para você, por quê insistiu na ausência?
Se a vida é feita de escolhas, por quê você insiste naquelas erradas?
Nem tudo aquilo que se perde é possível recuperar.
Você deveria pensar nisso.
E pensar bem.
O tempo pode ser um aliado, assim como pode ser o pior inimigo.
Cabe a você saber usá-lo.
E você, mais de uma vez, já deu mostras de que não sabe ser amiga do tempo.
Os dias se sucedem.
Vão se seguindo.
E algumas coisas não mudam.
O orgulho prevalece, mas ainda assim as lembranças não te abandonam.
Ainda sente falta.
Ainda pensa muito.
Ainda não conseguiu esquecer.
Ainda não conseguiu achar ninguém à altura daquele.
Deixará de sentir?
Parará de pensar?
Esquecerá?
Achará?
Afinal onde andarão tantas respostas?
Procure-as aí do lado.
Elas estão contigo mesma!
Mas sinto informar que talvez elas não irão dizer aquilo que você insiste em demonstrar para o mundo e a falar da boca pra fora.

Música incidental: Ali (Skank)

"Ela andou e eu fiquei ali
Ou será que fui eu que dali mudei
Com uns passos mudos
De uma reticência?"

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Esquecimento


O amor tem lá suas armadilhas.
Encontros e desencontros na vida.
Feridas recentes que parecem não se cicatrizar.
E a pergunta sempre paira no ar: conseguirei esquecer?
Não é um processo rápido, indolor e que surge como passe de mágica do dia pra noite.
É lento.
Mas vem.
O esquecimento vem em doses homeopáticas.
Para sorte de uns e azar de outros, normalmente é ação irreversível.
O tempo é a carruagem do esquecimento.
Conforme vai acelerando, o esquecimento mais se aproxima do destino.
E ele chega aos poucos.
Primeiro passa a borracha nas coisas mais próximas e físicas.
Apaga o cheiro do corpo, do pescoço, dos cabelos.
Apaga o som da voz e o ruído da gargalhada.
Apaga o brilho do olhar e mesmo a cor dos olhos.
Apaga o gosto do beijo (seria bom?) e o calor do toque das mãos ou da pele tocada.
O apagador depois começa a agir nas lembranças.
A pessoa outrora tão presente no cotidiano e no pensamento, de repente vai se afastando da realidade.
O desenho de traços e cores tão vivas vai se tornando um arremedo do que já foi e logo não passará de um tênue rabisco leve numa folha amassada.
E o destino das folhas amassadas é um só: o lixo.
Nesse caso, o lixo da memória.
Um dia talvez reapareça alguma lembrança perdida.
Você olha para aquilo e sorri, intrigado: será que um dia vivi mesmo isso de fato?
Na dúvida, passa a pergunta sem resposta adiante e segue em frente naquilo que estava fazendo.
Afinal, na vida, apenas as coisas que são importantes de fato permanecem.
E o resto?
É resto.

domingo, 9 de outubro de 2011

Recomeço



Chegou a hora de recomeçar.
As coisas mudam.
As coisas vão e não tem mais volta.
Mas a vida não passa e é preciso seguir adiante.
Simples assim.

Já vou.

sábado, 10 de setembro de 2011

UTI



Normalmente sou um cara animado, mas esse post não é alto astral.
Ele fala de tristeza.
Ele fala já de saudade.
Ele fala de verdades.
Ele fala sobre o tempo que nunca para de passar.
O tempo que vai acabando para muitos.
É duro ver as pessoas queridas envelhecendo.
É duro vê-las se apagando como a chama bruxuleante de uma lamparina.
É duro vê-las murchando dia-a-dia como flores abandonadas sobre a mesa.
É duro ver o brilho do olhar ir enfraquecendo.
É duro vê-las perdendo o vigor, a força e até a vontade de sorrir.
É muito triste isso.
É de cortar o coração.
Mas fazer o quê?
Seres imortais não existem na vida real.
O desejo da imortalidade é expresso no mundo das artes.
O cinema tem exemplos. Seja na série de filmes Highlander ou na também série Crepúsculo, a alegoria da imortalidade está presente.
E há sempre aquela agonia do ser imortal em ver as pessoas próximas envelhecerem, enquanto ele mesmo não envelhece.
Mas, no mundo real, estamos longe dessa utopia.
Nós próprios, observando o envelhecimento dos outros, não nos damos conta de que estamos também envelhecendo.
Vamos dia após dia enrugando e amarelando como as páginas de um livro que aos poucos vai sendo rascunhado, rabiscado, mal-escrito.
É observando o envelhecimento e perdendo as pessoas queridas que precisamos nos preparar para o dia que também chegará a nossa hora.
Infelizmente a vida é assim.
Infelizmente a única certeza que temos nessa vida é que a morte um dia chegará.
Triste e pura verdade.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Sereia no aquário




É uma emoção estranha.
Você é um ser virtual.
Mas ainda assim lhe quero bem.
Ainda assim eu lhe busco.
Não sei qual é a cor do seu olhar ou que som tem o seu sorriso quando vai além do leve tremular no canto da boca.
Não sei que cheiro tem.
Não sei se o seu andar é cheio de charme.
Não sei se sua voz é música para os meus ouvidos.
Pouco sei dessa moça virtual no mundo real.
Mas ainda assim procuro o seu rastro na rede todos os dias.
Tento enxergar nas entrelinhas dos seus posts os fragmentos que poderão identificá-la no mundo real.
E cada vez, como numa teia sendo articulada, acabo me ligando ponto a ponto a você.
Não deixo de ficar preso, ligado.
Tal qual aquário e peixe.
Peixe e aquário.
Melhor ainda...
Sereia.
Aquário.
Agora mesmo, por acaso, nossos caminhos virtuais se cruzam.
É uma emoção estranha.
Fico lhe imaginando frente a frente com a tela do computador.
Tento vislumbrar o reflexo que a luz lançada do aparelho terá no seu rosto, nas sombras na sua pele, nos raios filtrando por entre os fios dos seus cabelos.
Fecho os olhos e tento imaginar por um instante.
Uma imagem efêmera se forma.
Abro os olhos e ela se esvai, como neblina ao sol.
Diante dos olhos não há mais a imagem.
Mas as características do seu ser virtual estão fixadas.
Essas, sim, são vívidas e marcantes.
Mas preciso mais.
Preciso ir além.
O mundo real também cobra uma presença.
A sua presença.
E quando deixaremos de ser apenas virtuais?
Será que deixaremos um dia?
Nem que seja só um dia?
Ah!
Quem me dera eu pudesse ser real um dia e lhe dizer em palavras ao vento tudo o que sou capaz de sentir.
Quem me dera!

P.S. Sereia, sereia... Faça o seu canto virtual se tornar real. Encanta-me com seu canto...

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Minhas verdades



Preciso falar a verdade.
Preciso falar das minhas verdades.
Sou goiano.
Do pé-rachado.
Mesmo!
Sou do interior.
Sou da roça.
Sou ainda meio caipira.
Gosto de música sertaneja.
Gosto de moda de viola.
Gosto de mato.
Gosto de beira de rio.
Gosto do cheiro da terra molhada logo na primeira chuva.
Gosto muito mais de olhar as estrelas no céu do que as luzes da cidade.
Gosto muito mais de ver a lua-cheia clareando a mata do que prateando os telhados.
Gosto muito mais de ouvir o canto dos passarinhos do que o barulho dos carros.
Sou assim.
Não adianta, vivo na cidade, mas sou muito mais rural do que urbano.
Não adianta, eu sai do interior, do sertão, mas o sertão não saiu de mim.

“Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera.”
(Guimarães Rosa - Grande Sertão Veredas)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Zodíaco explica


Está certo que esse senhor não explica tudo.
Mas ando encafifado com o zodíaco.
Eis que me deparei dia desses com uma lista de afinidades amorosas entre o meu signo (aquário) e os demais.
Praticamente incompatíveis: peixes, escorpião e câncer.
Algumas semelhanças e muitas diferenças: capricórnio, virgem e touro.
Diferenças que estimulam: áries e sagitário.
Afinidades, mas excesso de semelhanças que atrapalham: aquário.
Oposto que atrai: leão.
Total compatibilidade: gêmeos e libra.
Eis que me peguei a repassar os meus relacionamentos.
O último relacionamento mais longo foi com uma virginiana. Algumas semelhanças, muitas diferenças. Tentamos, insistimos. Não estamos juntos.
Há pouco tempo (nem tão breve) surgiu uma leonina. A primeira. O oposto de mim. Atração inexplicável e irresistível. Até hoje ainda nos causamos arrepios. Não estamos juntos. Temos até medo um do outro e evitamos até mesmo nos encontrar. Dá choque!
E daí repasso os casos que me lembro: peixes, escorpião, touro, áries, capricórnio e até mesmo aquário.
Resultado: nada deu certo!
Daí constato que não me lembro de namoradas ou casos mais longos de libra e gêmeos.
E, naquela escala acima, são justamente as librianas e geminianas que se configuram como os pares perfeitos do aquariano que sou.
Pronto!
Está aí o culpado por minha vida sentimental andar sempre de ponta-cabeça.
A culpa é do senhor zodíaco!
Portanto agora serei seletivo, relacionamentos sérios só com librianas e geminianas.
E que a busca se inicie!

domingo, 24 de julho de 2011

Segunda chance


A vida não é um jogo. Muito menos um jogo de futebol.
Dificilmente temos segundas ou terceiras chances em caso de deslizes, de erros.
Dificilmente teremos a bola colocada de novo na marca do pênalti para tentar o segundo arremate.
No entanto, se por um acaso, um sortilégio, você tiver uma segunda chance, não pense nem uma vez para agarrá-la como se fosse a tábua de salvação.
Mas, fica a dica, não vai adiantar fazer as coisas como você fez na primeira chance.
Vai ser preciso fazer mais do que antes.
Vai ser preciso fazer o melhor que já fez.
Não deixe espaço para nenhum tipo de arrependimento relacionado com algo que você não tenha feito.
Faça o que for preciso sem pensar em mais ninguém além de você mesmo.
Faça por você mesmo e não para ninguém.
Fazer por você mesmo vai impedir que você se decepcione.
Afinal de contas, a única pessoa que não vai te decepcionar nesse mundo vai ser você mesmo.
E, se por acaso se decepcionar consigo mesmo, daí estará próximo do fim do mundo, do seu próprio mundo.
Voltando à chance...
Na segunda chance, seja o melhor.
Não se arrependa.
Deixa que os demais se arrependam por não estarem à altura do seu esforço.
Na segunda chance, não tenha dúvidas quanto ao que precisa fazer.
Na segunda chance, olhe para o goleiro lá na frente e o ignore.
Na segunda chance, faça o gol.
Na segunda chance, deixe a sua marca.
E que seja Marca Evidente.
Quando ouvir a rede chacoalhando e a bola morrendo no fundo do gol, vire as costas e siga em frente.
Você aproveitou a segunda chance.
Novas chances aparecerão em novos jogos.
Não decepcione!

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Conto de Fadas: The End!


Hoje é um dia de constatação e contestação.
Cuidado para não derrapar nas palavras e considerá-las como iguais.
E não são.
Constato que preciso contestar.
Contestarei.
No blog de uma colega, ela deu declarações sobre o amor, amor maduro, e concluiu algo parecido com: não existem Contos de Fadas na vida real.
Como assim?!?
Estou decepcionado agora!
Logo na minha pós-adolescência sou obrigado a encarar essa pérfida, dura e fria verdade?
Meu mundo a partir desse dia muda.
É outro mundo.
Vou levantar já desse toco no qual estou sentado à espera de uma princesa de longos cabelos esvoaçantes ao vento chegando célere numa égua branca.
Desisto dessa espera!
Vou colocar uma placa de proibição bem na entrada da minha vida:
Proibido princesas em éguas brancas!
E tenho de agradecer à colega por me alertar.
Sinto-me, agora, como um escravo alforriado.
Desisto dos Contos de Fadas e vou para o mundo real.

Música incidental, do Engenheiros do Hawaii:
"Um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão, sem querer eles me deram as chaves que abrem essa prisão"

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Sobre curvas e silêncios


Podemos conviver anos a fio ao lado de pessoas sem ter com elas uma ligação estreita qualquer que seja.
Tais pessoas, não por elas mesmas e nem por nós próprios, permanecem como folhas em branco ou, no máximo, com um esboço mal delineado.
Em sentido contrário, encontramos pessoas em situações totalmente incertas e improváveis e que, em pouco tempo, acabam se tornando essenciais em muitos sentidos.
Em poucos traços consegue marcar definitivamente a página em branco.
Questionadores e inseguros que somos, por natureza, muitas vezes nos pegamos a perguntar a explicação para isso.
Por que uma pessoa surgida do nada, numa curva qualquer da estrada, se torna tão gigante de um momento para o outro?
Por que gostamos tanto de falar com ela?
Por que temos necessidade de saber como anda o dia?
Por que nos apegamos tanto sem motivo algum, sem intenções e sem esperar nada em troca?
E os porquês vão se sucedendo, se somando, se multiplicando.
As questões amontoam-se e ficam incontroláveis.
E passamos a nos questionar tanto e a questionar tanto a vida que acabamos esquecendo de viver os momentos.
E assim, nos perdemos.
De maneira geral sou muito ávido e impaciente. Falo demais. Quero que as coisas aconteçam o mais rápido possível. Mas acabo não deixando espaço para nada acontecer direito. Na pressa de fazer as coisas andarem, acabo tropeçando e atropelando. Perco os freios e as estribeiras.
E assim me perco.
Lembro-me de uma conversa virtual recente.
Eu querendo respostas, respostas e respostas.
Eu querendo entender o sentido de tudo e dar um sentido à mínima coisa.
Daí a moça que falava comigo resumiu bem o que eu precisava fazer.
"Viva. Apenas viva. Deixe as coisas acontecerem. E pare de fazer tantas perguntas"
E isso serve para tudo. De maneira ampla e irrestrita.
Preciso aprender a fazer mais disso mesmo.
Viver mais.
Questionar menos.
Que minhas questões fiquem apenas para as perguntas profissionais do meu cotidiano de repórter.
Para a vida será preciso mudar.
Não quero chegar lá no fim da estrada pensando que perdi a chance de viver tanta coisa naqueles momentos que estava mais preocupado em perguntar os motivos para viver tais coisas.
Tenho aprendido muitas coisas ultimamente.
Venho tendo conversas enriquecedoras.
Venho conhecendo pessoas espontâneas dessas que são naturalmente adoráveis em todas as suas qualidades e defeitos.
Agradeço pelos caminhos incertos terem colocado as pessoas certas no meu caminho.
Isso não é nenhuma declaração, é apenas uma nota de reconhecimento.

P.S. Este post é dedicado a M.D.P., menina incrível e meio doida, com a qual tenho passado divertidos momentos virtuais e com a qual tenho aprendido que os loucos sabem, como poucos, serem felizes. E faço a ela um pedido: continue assim. O mundo depende de pessoas como você para ser melhor. E, menina de nome incomum, o que fazer agora? Apenas sorria. Apesar das placas gosto de ti e sou seu AMIGO!

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O senhor dos frascos



O senhor dos frascos

Quisera eu ter a capacidade para manusear frascos e conteúdos.
Quisera eu ter o poder de fazer isso pelo menos na minha vida.
Escolher qual o conteúdo fica melhor em determinado frasco.
Assim poderia fugir das pedras no meu caminho.
Imagine que dez pessoas estão dispostas a dar a vida para estar ao seu lado...
Com certeza elas existem.
Creia nisso.
Mas dificilmente estará ao seu lado aquela exata pessoa que você desejaria que desse a vida para estar ao seu lado.
Não seria mais fácil, então, retirar o conteúdo de um daqueles dez frascos e depositar naquele outro frasco desejado?
Seria.
Não é.
Infelizmente a vida não permite que as coisas sejam assim tão fáceis.
E, por isso, acontecem tantos desencontros.
E, por isso, temos muitas mais notícias de histórias que não deram certo do que das que deram.
Desde que o mundo é mundo as coisas são assim.
E não mudarão.
O seu frasco com o conteúdo certo está em algum lugar agora mesmo.
Mas ninguém sabe onde estará tal prateleira.
Tomara que tenha o dom de encontrá-la.
Senão você próprio continuará vazia.

Tem uma música antiga de um cantor chamado Dalvan que fala justamente sobre isso. Segue, abaixo:

Desencontros (Dalvan)

"São tantos desencontros loucos nesta vida louca
São tantos desacertos certos nesta vida pouca
São tantos estes descaminhos e amarguras quantas
E tanto são estes espinhos em nossas gargantas

São tantas curvas nas estradas muitas desavenças
Nos olhos na cor, nos carinhos, quantas diferenças
Aquele que quer não precisa, o outro não tem o que deseja
Tem um que dá sua camisa pra não ver o outro chorar de tristeza

José é doido por Maria, Maria é louca por João
João não sente alegria, ama Conceição, Conceição deseja Pedro
Mas Pedro não quer mais ninguém
Existe sempre alguém no mundo procurando alguém"

terça-feira, 5 de julho de 2011

Olha eu aí!


Cá estou, oito meses depois, para perguntar a esse meu único filho como ele está. E o que tem ele a me dizer? Sente-se abandonado. Também pudera, aqui pouco apareci nesse tempo todo. E, se apareci, acabei não postando, ou seja, não o alimentei. Não irei tentar expos as justificativas para o sumiço. Tampouco prometerei estar presente constantemente. Mas, pelo menos, estou de volta. Olha eu aqui! Eis o retorno!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Páginas


Arranco as páginas do meu passado como arranco as folhas de um caderno velho.
Retiro aquilo que não me interessa, que não me fez bem, amasso e jogo no lixo.
Tento colocar no meio disso as mágoas, tristezas e decepções.
Levanto a cabeça e tento olhar para o futuro.
E pode ser que no futuro eu reencontre o passado.
Os trilhos dessa estrada, que um dia se distanciaram, podem voltar a se aproximar.
Sigo em frente sem tentar entender os motivos das atitudes do mundo.
Digo mais uma vez para mim mesmo que não esperarei nada mais do próximo.
Afinal, não esperando, a gente tem menos chance de se decepcionar.
Vou embora.
Não sei se volto.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Abrigo


Caminhava o viajante. Passos lentos. Um pé de cada vez. Trazia na bagagem, num saco às costas, desânimo, tristeza e desilusão. A principal companheira de viagem era a solidão.
Trazia a testa arranhada e os joelhos calejados por causa de tantos tombos tomados naquela estrada acidentada.
A roupa? Tinha-a esfarrapada e suja das tantas vezes que sacudira a poeira após se levantar.
Seguia lentamente, mas sempre em frente. Ora era castigado pelo sol em brasa. Ora era fustigado pelo vento cortante da madrugada. Ora era machucado pela chuva gelada.
Lá adiante, uma encruzilhada. Num dos caminhos possíveis avistou uma construção e uma mulher à porta. Para lá, rumou. Ao longe, mulher de cabelos pretos e blusa branca. De perto, olhos de Capitu, sorriso brincando no canto dos lábios e mãos bem-feitas.
Com ela, falou.
"Cansado por demais estou. Abrigo, dar-me-ia?", indagou.
Dela, a voz? Música para os ouvidos. Mas vibrou, cheia de avisos.
"Dar-te-ei. Todavia, até quando não sei. A casa, minha apenas é. E tão somente como abrigo temporário lhe servirá"
Opção outra para ele havia? Até que sim. Entretanto, encantado como estava, a voz como da sereia o canto, soou.
Ali ficou.
Trocou a roupa, curou os arranhões e vestiu nova face.
Ali não houve sol que o castigasse, vento que o fustigasse ou chuva que o machucasse.
Abrigou-se. Chegou por fim a esquecer da bagagem que atirara a um canto qualquer do pátio.
O tempo voou. Preferiria ele que parado houvesse.
Mas, maldita, a ampulheta nunca dá trégua.
De repente, não mais do que de repente, o viajante às pressas foi acordado.
Sacudia-o a mulher. De um sonho, o arrancou.
Olhos frios e duros, qual mar sem ressaca, e lábios sem sorriso, nas belas mãos trazia ela a trouxa.
"Toma. Suas coisas, pega. Parte. Chegaste sua hora. Vá embora!"
Surpreendido como foi não teve tempo para perguntar. Mas, adiantar não iria. Resposta qualquer teria.
Sacola de novo às costas, com sua bagagem eventual, viajante no caminho o pé botou.
Seu rumo tomou.
Sem abrigo de novo ficou.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Caminhos


Na vida, há momento certo para tudo.
Momento para dar o primeiro passo.
Momento para seguir em frente.
Momento para parar.
Há também aquele momento para ficar parado, sentado à beira do caminho?
E olha que nem todos fazem isso para descansar ou para pensar no que passou e no que virá.
Em muitos momentos permanecemos sentados por falta de opção, sem saber o que fazer...
Devemos nos levantar, fazer meia-volta e buscar algum outro rumo que ficou lá atrás, em alguma encruzilhada?
Devemos seguir adiante no mesmo caminho?
Incertezas.
E as respostas voam tão alto e velozes que sequer deixam sombras por onde passam.

"Só você não vê que eu
Não posso mais
Ficar aqui sozinho
Esperando a vida inteira
Por você
Sentado à beira do caminho...

Preciso acabar logo com isso
Preciso lembrar que eu existo
Que eu existo, que eu existo...


(Sentado à beira do caminho - Roberto Carlos)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

03:03


Queria alguma coisa inteligente e sensata para dizer após as 3 horas da madrugada de um dia 7 de setembro.
Mas pareço vazio.
Aliás, fazendo uma busca, não me vejo assim tão vazio.
Dentro do próprio ser encontro perguntas e mais perguntas em busca de respostas.
Mas não sei se essas perguntas ávidas conseguirão se acasalar com quaisquer respostas.
Quanto mais analiso, à luz racional e silenciosa da madrugada, menos consigo entender certas situações.
Se fosse um tabuleiro de jogo qualquer, as peças não estariam seguindo o roteiro permitido e planejado.
Elas teriam quebrado todas as regras e mergulhado no mais perfeito caos.
Não entendo.
E não entender sempre me deixou aflito.
E assim, alta madrugada, fico a encarar a aflição na tela brilhante do monitor.
Madrugadas podem ser boas conselheiras.
Mas essa madrugada consegue ser muda e irritantemente fria, apesar de todo o calor seco que sopra lá de fora.
A mente vagueia sem destino e vai encontrar, em pensamento, tanta gente que já dorme.
Gente bem próxima, gente bem distante, gente há muito quase esquecida, gente quase desconhecida.
Passado distante. Passado recente. Ontem, apenas, também.
Silêncio!
Até o tiquetaque do relógio de pulso consegue ser ouvido ao longe tamanho o vazio.
Cães não ladram.
Galos não cantam.
A cidade parece mergulhada em transe.
O tempo se arrasta sem pressa de trazer algum alívio aos perdidos na madrugada.
O sono daqui fugiu pela janela aberta e foi mergulhar em mentes menos despertas.
Acordado permaneço.
Acordado não há sonho.
Mas, paradoxo, acordado pode haver pesadelo.
Finalmente algum ruído mostra que o mundo não está paralisado.
O vento sopra nas folhas de alguma árvore.
E traz para dentro algo mais além de um calor descrente.
O vento refresca a pele.
Mas o interior ainda é incandescente em chama viva.

P.S. Apesar de não ser inverno e de não chover, a música pode até servir ao momento.

No inverno fica tarde mais cedo

"Escuridão
noite liquefeita
tudo toma forma
do corpo que se deita
na escuridão
escuridão
nenhum olhar aceita
tudo se transforma
numa cama desfeita
na escuridão
escuridão
hora da colheita
pra quem semeou vento
numa cama desfeita
na escuridão
um corpo que se deita
um corpo em tempestade
agora já é tarde
solidão
hora da colheita
pra quem semeou o vento
num corpo que se deita
na solidão
de uma cama desfeita
um corpo em tempestade
agora já é tarde
no inverno fica tarde mais cedo
só depois de perder você descobre que era um jogo
um jogo que não acaba nunca, nunca acaba empatado
se foi um jogo, você ganhou: eu perdi a direção
se foi um sonho, se foi o céu, eu não sei
eu que não sei perder, perdi o sono
na escuridão, na escuridão"


Engenheiros do Hawaii

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Tempo


Houve um tempo em que tudo era mais fácil.
Esse tempo passou.
Esse tempo acabou.
E, em muitos sentidos, fiquei parado no tempo.
E, em certo sentido, fico a esperar o tempo que não vai voltar.
Mas isso somente diz de um recorte de tempo.
Sobre o tempo de vida de um certo tempo.
É o nosso tempo com pessoas, lugares, situações...
Esse foi o tempo que findou, ruiu, esfumaçou.
Porque o verdadeiro tempo é mais amplo.
É o tempo que, para cada um de nós, não para.
Os grãos continuam a escoar pelo gargalo fino da ampulheta.
Afinal, a areia não pode parar de escorrer.
Chegará o momento em que será necessário (des)virar a ampulheta de ponta-cabeça (ou de cabeça pra ponta?).
E isso fará com que o tempo volte?
Não.
Ele continuará passando...
E, ainda que os grãos de areia sejam os mesmos e a ampulheta, também, nem tudo estará mais como antes.
E então chega um novo tempo.
Um novo tempo que também não para.
Segundo a segundo.
Minuto a minuto.
Hora a hora.
Dia. Semana. Mês. Ano. Década.
A século dificilmente alguém chegará.
Milênio? Jamais alcançará!
Chega o dia que a ampulheta quebra.
E a areia de cada ser em si deixa de escorrer.
E esse é sim o fim do tempo.
O fim do seu tempo.
E a areia vira pó.
Pó.
Só.

"Se eu ousar catar na superfície de qualquer manhã as palavras de um livro sem final! (...) Valeu a pena! Sou pescador de ilusões" (O Rappa)